PesquisarOportunidadesEventosSobre a C&Hubs
C&
Revistas
Projetos
Educação
Comunidade
Ensaio

Sons do Caribe: o rádio e suas possibilidades de conexão

Electronic devices, including a glitching monitor, laptops, speakers, and a boombox, are arranged on a green tiled floor in a room with large windows.

Kenny Cairo, Urgence (Urgência), Cité internationale des arts © Kenny Cairo

Em uma série de registros não lineares, o escritor Kenny Cairo redefine a conectividade e a sonoridade do rádio – de Guadalupe a Paris, passando pela Jamaica.

Em setembro de 2024, comecei uma residência de pesquisa-criação na Cité internationale des arts, em Paris. Desenvolvi a instalação sonora Urgence (Urgência), montada como uma orquestra de alto-falantes de segunda mão. Ativados como uma parte da performance curada pela Fondation H, cada alto-falante transmitia o som de maneira autônoma, atraindo o público para um espaço sonoro saturado de informação. No coração da performance, um objeto emissor de som ocupava um lugar central: o rádio.

Elevado a um status ativo dentro de Urgence, no contexto insular do Caribe, o rádio representa as possibilidades de uma fuga rumo a "outro lugar", através do som e da exploração a partir do local de escuta. Ele também continua a ser uma ferramenta de reconexão das realidades das Antilhas, com uma transmissão que revoga as fronteiras marítimas do arquipélago. Essa reflexão nasceu de uma experiência de escuta dentro da paisagem de Guadalupe, e influenciou significativamente minha obra na Cité internationale des arts.

Two people in a rustic wooden room with a white backdrop and studio lights; one stands center, another kneels left.

Hubert Petit-Phar, Outre-rage (Além da Fúria), La Maison Rouge © Kenny Cairo

Um voo rumo a outro lugar

Os furacões que cruzam a bacia do Caribe de junho a novembro de cada ano somados à atividade sísmica e vulcânica – esses fenômenos naturais potencialmente catastróficos fazem parte da vida cotidiana em Guadalupe. Nessas situações, o rádio é a ferramenta perfeita para uma pessoa se manter informada via ondas aéreas – aparelhos que não precisam de eletricidade da rede elétrica para funcionar e só dependem de pilhas.Em Guadalupe, a população é muito apegada a esse objeto. De janeiro a junho de 2024, 73% das pessoas de 13 anos ou mais ouvia rádio (Médiamétrie, 3 de julho de 2024). Essa escuta pode ser compreendida a partir do seguinte contexto: "a maioria das pessoas em Guadalupe vão para seu local de trabalho de carro (84%) e muitas delas ouvem rádio durante o trajeto" (INSEE). No entanto, essa prática se estende também ao ambiente doméstico, onde ouvir rádio se torna uma forma de observar como outras realidades são tecidas quando a mobilidade é restrita – um jeito de se conectar com histórias vindas das outras ilhas que compõem o arquipélago.

O rádio permite que escutemos os sons à medida que eles são propagados, as palavras, à medida que elas são pronunciadas, onde a visão pode impedir a descoberta. No contexto insular do Caribe, o rádio elimina o mar como obstáculo. Essas afinidades e proximidades com o outro lugar já foram monitoradas e até mesmo proibidas. É fato que, no dia 22 de junho de 1940, durante o período conhecido como An tan Sorin, "um homem foi interrogado por ter ouvido rádio alto demais*" (Arquivos Departamentais de Guadalupe):

“Na terça-feira, dia 29 de outubro de 1940, dois policiais em patrulha no centro de Pointe-à-Pitre ouviram um barulho suspeito. Um aparelho de rádio (TSF) na Rua Gosset estava transmitindo música dançante.
O inspetor de polícia redigiu imediatamente um relatório. O ‘culpado’ trabalhava no transporte marítimo, era casado e pai de quatro crianças. Não possuía antecedentes criminais. Cometeu o delito de ouvir música alto demais na Rádio Haïti.
De fato, a ordem nº 1541 de 10 de outubro de 1940, publicada no Journal Officiel de la Guadeloupe no dia 17 de outubro de 1940, estipulava ser proibido ‘ouvir toda e qualquer estação estrangeira’ em lugares públicos, bem como o uso de alto-falantes; e que aparelhos de rádio ‘devem ser ajustados a fim de que seu som não possa ser ouvido do lado de fora dos edifícios onde funcionam’.”

Archives départementales de la Guadeloupe, “La Guadeloupe 'an tan Sorin', un homme inquiété pour avoir écouté sa radio trop fort”. 10 de agosto de 2022.

Black and white album cover for Super Combo's "Mait'a Mannioc", showing a large group of men in a relaxed pose, with some smoking.

Foto: Divulgação

Album cover for Super Combo showing a band of Black men in a tropical landscape, with the title in large white letters over a multi-colored striped background.

Compartilhamento da escuta

Dentro de casa, o rádio se torna um objeto íntimo, pessoal. A escolha de uma estação e sua difusão pelo ambiente implica o compartilhamento da escuta com quem está ao nosso redor.

Em uma tarde de julho de 2024, em Bouillante, Guadeloupe, meu vizinho estava ouvindo dancehall jamaicano explodindo em alto-falantes e subwoofers de baixa qualidade. Tentei revidar, mas o poder estava desequilibrado: de modo um tanto ridículo, liguei o radinho no quarto do meu tio. Ele estava deitado na cama e me agradeceu. Para abafar o som externo, aumentei o volume o suficiente para que toda a casa curtisse. Na frequência 88.1 FM, a Radio Haute Tension estava transmitindo biguine:

"A biguine da Martinica, testemunha, desde o século 19, de uma evolução significativa das sociedades que a criaram e dela dependem, resulta do encontro entre povos estrangeiros à terra ocupada, ao mesmo tempo que marca fortemente os antagonismos entre esses mesmos povos.’ (Resumo de uma palestra feita por Michel Béroard em 2015, em ‘La culture musicale de la biguine martiniquaise : entre mémoire et avenir’, disponível na biblioteca digital manioc.org.)"

Ouvi a música do meu quarto e, quando ela terminou, quis continuar ouvindo mais. Entrei online e cliquei na primeira playlist de biguine que a plataforma de streaming sugeriu. Ouvi o álbum do Super Combo de Pointe-Noire, uma banda de uma comuna vizinha à minha. Gostei e compartilhei o álbum com S., meu amigo franco-comoriano em Paris, com a certeza de que ele também iria gostar. Naquele momento, fiquei tão orgulhoso de apresentá-lo a essa música – cadenciada, complexa – que se desenvolveu tão perto de casa.

Não consegui encontrar muitas informações sobre o grupo. Olhei a capa do álbum Mèt a Mangnòk (1975) e contei onze homens, provavelmente os músicos. Eles nos proíbem de falar mal de sua profissão: "Pa malpalé lé muzisyen, pa trété-yo dè chyen", porque a música que compartilham encanta o público feminino: "pou kibiten, pou on mizik? On biten yo ka tann? Mi yo vin fòl, mi yo sédwi".

Mais tarde comentei sobre isso com meus colegas. R. respondeu: "Mas é claro! Conheço Super Combo. Quem você acha que eu sou? Sou de Pointe-Noire!"; já D. me corrigiu:"isso não é biguin, soa mais como kadans", uma forma de merengue moderno que surgiu no Haiti no início dos anos 1960.

Eu teria passado a tarde inteira ouvindo as doze faixas do álbum no meu quarto. Quando ele terminou, levantei e abaixei o volume do rádio do meu tio. O vizinho já havia guardado seus equipamentos. Cada um de nós cedeu lugar ao concerto noturno das Antilhas, que não acaba antes do sol nascer.

Integrado à performance Urgence, o rádio suscita a reflexão crítica sobre um objeto central da cultura guadalupense moderna. Além de provocar gestos de quem faz a performance em direção ao objeto, ele convida o público a uma experiência semelhante à minha própria em Guadalupe: uma abertura para outras geografias e realidades – aqui, no Haiti – e um compartilhamento da escuta.

Editor convidado: Chris Cyrille.

* Arquivos Departamentais de Guadalupe, “Guadalupe 'an tan Sorin', um homem interrogado por ouvir rádio alto demais", 10 de agosto de 2022. Disponível em: https://www.archivesguadeloupe.fr/2022/08/10/la-guadeloupe-an-tan-sorin-un-homme-inquiete-pour-avoir-ecoute-sa-radio-trop-fort/
** Béroard, Michel François. "A cultura musical da biguine martinicana: entre a memória e o futuro". 2015. Excerto de: Poetics and Politics of Otherness: Colonialism, Slavery, Exoticism in Literature and the Arts (17th–21st Centuries) (Poéticas e políticas da alteridade: colonialismo, escravidão, exoticismo na Literatura e nas Artes; séculos 17 a 21) — conferência internacional, 12 de março de 2015, Colóquio e leitura, Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Literatura, Línguas, Artes e Humanidades (Schoelcher, Martinica), 13 de março de 2015. Biblioteca Digital Manioc. Acesso em 14 de outubro de 2025. Disponível em: http://www.manioc.org/fichiers/V15164.

Sobre o autor

Kenny Cairo

Kenny Cairo é artista multimídia e agente cultural e vive entre Guadalupe e Paris. Sua obra explora as interseções das relações humanas, práticas de registro e experiência da paisagem. Sua obra recente sobre a região do Caribe concentrou-se principalmente na paisagem sonora, na experiência dos riscos naturais e na resiliência das comunidades locais frente a situações de emergência.

Leia mais deCaribbean
A woman with dark hair pulled back, wearing a colorful cardigan and red earrings, looks down at a book she holds. A man with a microphone is in the background.

Archivo Honduras Cuir: A arte da amizade e da vida trans na América Central

Illustration of a multi-armed, dark-skinned figure covered in leaves, crowned and riding a three-eyed tiger in a grassy field under a blue sky.

A convergência das vidas africanas e indianas nas pinturas de Kelly Sinnapah Mary

A black bookshelf displays books, greeting cards, and African-inspired decor, with a white wall above featuring various framed art and prints.

Seed Archives: Celebrando o design e as culturas africanas e caribenhas em Londres

Leia mais deCaribe
Three women harvest grain in a lush green field.

Third Horizon curates a new Cinelogue program exploring decolonial cinema and liberatory imagination from the Caribbean

A k u z u r u: Art, Post-humanism and Healing

A k u z u r u: Arte, pós-humanismo e cura

Denis Maksaens: Glitch and Representation in the Caribbean

Maksaens Denis: Glitch e representação no Caribe

ResenhasQueer
C& CYCLOPEDIA