Paris Noir: Surrealismo, Abstração e Figuração Pan-Africana

Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros, Paris, setembro de 1956. © Présence africaine Éditions, 1956. Foto: Lutetia.
29 Outubro 2025
Revista América Latina
Palavras Sherae Rimpsey
Tradução Renata Ribeiro da Silva
4 min de leitura
Neste texto experimental, a escritora Sherae Rimpsey responde à poética e à interioridade que vivenciou em uma grande exposição em Paris, composta por obras de artistas da África, do Caribe e da Diáspora.
Paris como um espaço e um sensor para a Negritude, o pensamento Negro, a criatividade Negra e a consciência relacional Negra. Foi isso que deduzi ser a premissa da exposição, e era muito ambiciosa. A magnitude da impossibilidade integrada na mostra – e o âmbito do possível – tornou-se um convite para viver essa lacuna. A violação do anseio Negro não pode ser quantificada. Sintonização, sintonização, sintonização. Uma entrada na criação de lugares é uma maneira de negociar formas, trabalho, coletividade.
Paris Noir foi uma grande exposição, que trouxe mais de 150 artistas da África, do Caribe e da Diáspora ao Centro Pompidou. Com a curadoria de Marie Siguier, Aurélien Bernard, Laure Chauvelot, Eva Barois De Caevel e Alicia Knock, sua apresentação da estética pan-africana e transatlântica insere-se, nos últimos anos, em uma tentativa mais ampla de rever as histórias do Modernismo e Pós-modernismo, incluindo a abstração, o surrealismo e a figuração.

Ming Smith, Autorretrato como Josephine, Nova York, 1986. Impressão pigmentária de arquivo, 91,4 × 62,9 cm. Cortesia da artista e da Jenkins Johnson Gallery, Nova York e São Francisco. © Adagp, Paris, 2025.
Em Paris Noir não houve uma literalização da experiência Negra. A brutalidade do colonialismo foi abordada por meio do poético, do subtexto e da subversão no figurativo, pela abordagem direta da abstração e pela reorientação de quem está observando para dentro de sua própria posicionalidade. Um dos momentos mais reveladores para mim foi um conjunto de cenas em loop do filme de Ousmane Sembène La noire de… (Black Girl – Menina Negra), projetado em uma parede em frente a uma pintura abstrata de Ed Clark. Diouana, a heroína do filme, é vista em momentos de reflexão calma, se aprontando para ir dormir e saltitando ao longo de uma balaustrada. Nesta última imagem, ouvimos o namorado de Diouana gritando a ela: “Descendez ! Descendez !” (Desça! Desça!).

Wifredo Lam, Umbral, 1950. Óleo sobre tela, 185 × 170 cm. Centre Pompidou, Musée national d’art moderne, Paris. Aquisição do Estado, 1969. Atribuição, 1976. AM 1976-990 © Sucessão Wifredo Lam, Adagp, Paris, 2025. Foto: © Centre Pompidou, MNAM-CCI/Georges Meguerditchian/Dist. GrandPalaisRmn
Em pé, naquela sala, entre Black Girl, a pintura vívida e profundamente comovente de Iba N’Diaye intitulada Tabaski, la ronde à qui le tour? (Tabaski, a roda – de quem é a vez?, 1970) – parte de sua famosa série alegórica sobre o abate ritual de cordeiros – e as pequenas cidades emergindo na obra do escultor modernista Harold Cousins, percebi o pintor Skunder Boghossian como um interlocutor, e vi um fio condutor entre temas como solidariedade revolucionária, sincretismo, mapeamento, retourné (retorno), affirmations de soi (autoafirmações). Obras da falecida cineasta Sarah Maldoror e da artista têxtil Hessie traçavam redes neurais de memória, as mulheres me observando. Flutuei entre a décalage (deslocamento) de Senghor e o tout-monde (todo-mundo) de Glissant. Mediação Negra como um meio de dar forma à vida. Ontologias totais. Preocupações ousadas. Tumulto. Estruturas em conclusão. E, se eu pudesse ficar ali, recalibrando, me reorientando dentro de minha própria posicionalidade, dentro da nebulosa gotejante da pintura Triptych (Tríptico), de Vicente Pimentel, poderia traçar a interioridade e escrever sobre a obra em uma dança entre linguagem e mundos:
A pintura é como a explosão de uma nuvem ou a névoa dentro de uma tumba. Chorando. A ilusão de semelhança ou passagem. É sobre o tema do tempo. As manchas são uma revelação, um tritàn du mystique. A tempestade central arrasta para dentro e depois para fora. O pote está cozido. O contorno, a ligne de constante inundação. Formações do cotidiano. Do quebrado. Onde está a barragem? O tempo. As crianças. Fantasia. É a combustão do horror. A lousa vazia. A carne errática. A sensação do pé, da cabeça, queimando. Não me submeto a nada. Sou o inverso da morte. Investida – o braço penetrante, fortificante, numinoso, palpatique. Eu mal estava escondida dentro da marca. Um murmúrio trazido pelo cuidado. Pressionando. Derramei sangue. Estampei o efeito que isso teve em dois corações salientes. O eixo da mente reverberou, esta sou eu esvaziada. O núcleo da calma requer distância – drylongso. Estou saturada de coisas debilitantes – conforto. Bem aqui, no fosso do apagamento havia uma bobina. Um cata-vento, já estou farta. Deixe o fundo me encontrar. Que eu retorne à ruína. Ao sulco. Uma tenra ideia da linha mera matéria. Uma PARTE azul que se expande. Raspa. Raspa. Traço. Soma envolvente. Uma maquete centenária se abrindo; cartilagem, sputum, punctum, míssil, suporta(do). Canalizando forma instigando PARTE. Uma liberdade sem membros. Raiva plana ágil. Continuo voltando ao sete – queixa. Na cisão da totalidade, me apressei para contar a história, um arco mais amarelado. Portador arauto do Sol, tenho o código. Preciso de um reino – revisões de revisões. Revisões da PARTE superficial. Ultrapassar qualquer armadura untada de óleo. Nódulos, glóbulos, osso. Puxar PARTE paisagem PARTE inércia a mesma mesma PARTE. Vou me contentar com isso – que constitui sistemas. Há uma forte compulsão de dar o fora. Ou de arejar significado desse tanto.
Paris Noir: Artistic Circulations and Anti-colonial Resistance, 1950–2000 (Paris Noir: Circulações artísticas e resistência anti-colonial), 1950-2000 foi exibida no Centro Pompidou, Paris, França, de 19 de março a 30 de junho de 2025
Este texto foi realizado graças ao apoio do Newcomb Art Museum, da Universidade Tulane, em Nova Orleans, Louisiana, EUA.
Sobre o autor
Sherae Rimpsey
Sherae Rimpsey é artista visual e escritora. Ela é bacharel em Tecnologia e Mídia Integrada com ênfase em Cultura Visual e mestra em Escrita. É editora e escritora de artes no Museu de Arte Newcomb.
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