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O poder da fabulação no cinema negro de Zózimo Bulbul

Monochrome profile of a screaming man with textured hair and a beard.

Still do filme Alma no Olho, 1974, direção de Zózimo Bulbul.

Em Alma no Olho, o cineasta negro brasileiro Zózimo Bulbul abre espaço para uma imaginação que foge da modernidade ocidental, reconstruindo uma representação corporal que desafia estruturas raciais.

Como e por quê se escreve uma história da violência, pergunta a historiadora Saidiya Hartman, ao relacionar a materialidade dos arquivos de mulheres durante o processo de deslocamento transatlântico com os relatos das violências sofridas durante esse percurso. Hartman propõe uma nova leitura dos arquivos a partir dessa mesma materialidade, a que chama de fabulação crítica: a reformulação da narrativa através da impossibilidade de recriar o passado. No Brasil, as políticas de representação vêm sendo questionadas por artistas negres, já pelo menos desde a década de 1970, que se veem no abismo de encaixar-se nas formas estabelecidas por esses discursos.

Monochrome close-up of a bearded man laughing, showing white teeth.

Still do filme Alma no Olho, 1974, direção de Zózimo Bulbul.

Black and white profile of a smiling man with a beard and a wet armpit.

Alma no Olho é um filme dirigido por Zózimo Bulbul em 1974, considerado um marco para o que se compreende, hoje, como Cinemas Negros no Brasil por desafiar as políticas de representação. O filme inicia com o close dos olhos de Bulbul preenchendo todo o espaço do quadro. Os olhos que estão abertos iniciam um movimento de deslocamento para os lados, abrindo a narrativa. Alma no Olho mostra um corpo negro e fragmentado, que é apresentado através de recortes nos primeiros minutos de filme: olhos, boca, orelha, ombros, axilas, pernas, nádegas. A narrativa, no entanto, aponta para uma totalidade ao trazer, a um único corpo, histórias de quatro séculos da presença negra no Brasil sem mencionar uma única palavra. Da nudez, o protagonista depois aparece com trajes de matriz africana, volta à nudez, mas acorrentado com correntes brancas, até vestir um fato branco seguindo acorrentado e finalmente quebrando suas correntes.

A narrativa em preto e branco de Bulbul se mobiliza para contar uma história que, por si só, já é fragmentada. Ao misturar os povos africanos no trânsito com o Brasil, o tráfico de pessoas negras fez com que as histórias dos povos fossem perdidas. Simultaneamente se criaram novas histórias resultando no que é conhecido como cultura afro-brasileira.

A dark-skinned person, hands raised and bound by ropes across their shoulders, wearing a patterned skirt, against a plain white wall.

Still do filme Alma no Olho, 1974, direção de Zózimo Bulbul.

Black and white still of a shirtless, dark-skinned person in white shorts, hands together, standing centrally in a stark white room with a shadow.

O filme traz, em seu título, a marcação à oposição histórica relegada a muitos corpos negros no continente africano e na diáspora: a negação da alma e de sua própria constituição existencial pelo pensamento ocidental. Na sequência em que toca delicadamente seu corpo, em gestos que indicam o reconhecimento de si, Zózimo convida o público a olhar para a sua pretitude, sobretudo quando explora seus recortes e no momento em que posiciona seu corpo em um gesto político que vai noutra direção, para além da exposição do corpo que, dentro da modernidade, é forjado entre a promessa da selvageria e o desejo do erotismo.

O experimentalismo do filme trata-se, portanto, de um espaço aberto para a criação, tensionando o que é lido como realidade, mas evocando outros códigos para possibilitar novas leituras onde o sujeito ultrapassa as limitações impostas pela branquitude. O ato de imaginar a liberdade revela uma posição contrária à continuidade de estruturas raciais, uma vez que ela permite a reconstrução do corpo-imagem fragmentado – assim como a brecha da pretitude de Denise Ferreira da Silva, um espaço onde a performance preta se impõe como uma insurgência aos limites colocados pela modernidade. Segundo pensadores como Leda Maria Martins ou Milton Santos, para essa fabulação se evidenciar, ela precisa ser experienciada várias vezes para ir reconfigurando o imaginário, não uma reconfiguração dentro de um espaço limitado, mas entendendo as multiplicidades de cadeias que interagem entre si.

Black and white image of a shirtless man with dark skin, his chained hands raised overhead, grimacing.

Still do filme Alma no Olho, 1974, direção de Zózimo Bulbul.

Black silhouette of a person with raised arms, a thick chain draped over their shoulders.

A sequência final mostra Zózimo caminhando em direção à câmera. Seu corpo se aproxima à medida que quebra as correntes, um gesto que revela a ruptura com o mundo ordenado do qual ele faz parte, emancipando imageticamente outros modos de inscrição da racialidade no campo subjetivo. Assim, ele elucida outra pergunta feita por Hartman em relação a como imaginar a corporeidade de uma maneira que não está ligada nem à servidão nem à violência.

Sobre o autor

Kariny Martins

Kariny Martins (Rio de Janeiro, 1995) é Doutoranda em Comunicação (PPGCOM/UFF), Roteirista e Curadora Audiovisual. É autora do livro Ficção Especulativa no Cinema Negro Brasileiro (2023).

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