PesquisarOportunidadesEventosSobre a C&Hubs
C&
Revistas
Projetos
Educação
Comunidade
Reseñas

Navegando escassez, raça e religião na fotografia cubana

Navigating Scarcity, Race and Religion in Cuban Photography

Fotografia cortesia do Museum of Fine Arts, Houston.

30 Outubro 2024

Revista América Latina

Palavras Mari Carmen Barrios Giordano

5 min de leitura

<em>Navigating the Waves: Contemporary Cuban Photography</em> (Navegando as ondas: fotografia cubana contemporânea) explora a forma pela qual artistas da fotografia em Cuba navegaram a expressão artística sob um regime político severo, que alegava ter eliminado o racismo e o sexismo. Artistas como Juan Carlos Alom e René Peña contestam essas narrativas por meio de técnicas como a utilização de filmes vencidos e do simbolismo religioso afro-cubano.

Em 1962, Fidel Castro dirigiu-se à segunda Assembleia Nacional do Povo de Cuba, que tomou lugar na icônica Praça da Revolução no topo de uma montanha em Havana. Poucos dias antes do início do longo bloqueio comercial da ilha e meses antes da Crise dos mísseis de Cuba ter danificado irreparavelmente sua relação com o continente, Castro fez uma declaração desconcertante. Disse que, graças à Revolução, Cuba seria agora um país que “suprimiu a discriminação por motivo de raça ou sexo” totalmente.

Alberto Korda, Heroic Guerrilla (Guerillero heroico), 1960, printed 1995, gelatin silver print, the Museum of Fine Arts, Houston, museum purchase funded by Dan and Mary Solomon. © Estate Alberto Korda

Alberto Korda, Heroic Guerrilla (Guerillero heroico), 1960, printed 1995, gelatin silver print, the Museum of Fine Arts, Houston, museum purchase funded by Dan and Mary Solomon. © Estate Alberto Korda

Da perspectiva ampliada do século 20 – com décadas de pesquisas demonstrando que o racismo e o sexismo operam de forma sistemática, institucionalizada e duradoura – a declaração parece absurda. Essas não são questões que podem ser resolvidas por decreto. Mas, em Cuba, o pronunciamento se tornou um componente importante do mito revolucionário, e questioná-lo passou a ser um ato de traição. As respostas de artistas de Cuba a tal censura constituem um dos pilares da exposição inaugurada recentemente no Museu de Belas-Artes de Houston (MFAH), Navigating the Waves: Contemporary Cuban Photography (Navegando as ondas: fotografia cubana contemporânea).

A frase “navegando as ondas” é uma metáfora para como artistas em Cuba tiveram que burlar a censura, lidar com a pobreza generalizada e a falta de material fotográfico, e, de alguma forma, conseguir continuar a criar. A exposição cobre o período de 1959 até os dias atuais e reúne os vários recursos inteligentes e por vezes velados através dos quais as pessoas que faziam fotografia em Cuba afirmaram sua liberdade, ao mesmo tempo em que enfrentavam enormes restrições. Além de apresentar a coleção extraordinária de fotografia cubana do MFAH, a exposição ainda faz uma análise lúcida do curso da fotografia em um país onde as circunstâncias são tão diferentes do mundo globalizado e interconectado das imagens aparentemente infinitas da internet.

Juan Carlos Alom, La mitad del mundo (The Middle of the World), from the series El libro oscuro (The Dark Book), 1996, Gelatin silver print, The Museum of Fine Arts, Houston, The Madeleine P. Plonsker Collection, Gift of Madeleine and Harvey Plonsker, 2024.238, © 1996 Juan Carlos Alom

Juan Carlos Alom, La mitad del mundo (The Middle of the World), from the series El libro oscuro (The Dark Book), 1996, Gelatin silver print, The Museum of Fine Arts, Houston, The Madeleine P. Plonsker Collection, Gift of Madeleine and Harvey Plonsker, 2024.238, © 1996 Juan Carlos Alom

O desafio de mencionar o racismo sem trair o governo revolucionário é um tema importante em toda a exposição, na qual as obras inquietantes de Juan Carlos Alom e René Peña captam a questão de forma mais contundente. A maioria dos painéis sombrios e misteriosos de Alom fazem parte de sua série El libro oscuro, dos anos 1990, conhecido como “Período Especial” – quando a economia de Cuba despencou após o fim do apoio de uma União Soviética que havia entrado em colapso. Diante da grave escassez de material fotográfico, Alom economizou, utilizando filmes com a data de validade vencida e produtos químicos de raio X para revelar seus negativos. Materiais fotográficos velhos tendem a ser menos sensíveis à luz, resultando na natureza crepuscular do libro oscuro, concebido pelo artista como um compêndio de mitos afro-cubanos inventados. Em La mitad del mundo, uma única perna com um grilhão no tornozelo emerge de um círculo de areia e a escuridão se estende até os cantos da imagem. O resto do corpo está enterrado ou estamos testemunhando um desmembramento? É a areia de uma praia ou do fundo do mar? As únicas alusões claras são aos horrores da Passagem do Meio e à escravidão, abolida em Cuba em 1886.

Para ajudar a apaziguar a população, que enfrentava uma pobreza desesperadora, o Período Especial trouxe uma flexibilização das restrições governamentais, incluindo as interdições religiosas. À medida que as práticas devocionais afro-cubanas, como a Santería, tornaram-se mais amplamente aceitas, René Peña encontrou uma fonte de inspiração. Em sua série Ritos, ele utilizou seu próprio corpo para criar alusões a rituais sacerdotais e oferendas religiosas como sacrifícios de galinhas (Ritos 1). Como declarou à curadoria: “Naquele tempo [1992], o governo decidiu dar às pessoas pequenas galinhas para serem criadas em casa, a fim de serem comidas mais tarde […] Esse elemento, uma galinha, é algo muito utilizado na religião afro-cubana, mas, ao mesmo tempo, fazia parte da religião do governo.”*

René Peña González, Untitled, from the series Ritos I (Rites I), 1992, Gelatin silver print, Museum of Fine Arts, Houston, Museum purchase funded by Clinton T. Willour in honor of Martha Skow, 94.778

René Peña González, Untitled, from the series Ritos I (Rites I), 1992, Gelatin silver print, Museum of Fine Arts, Houston, Museum purchase funded by Clinton T. Willour in honor of Martha Skow, 94.778

Talvez o melhor da exposição seja o fato de que nem todas as obras exibidas vão contra a corrente. As fotografias alusivas de Alom e Peña aparecem no contexto da tradição fotográfica da Revolução, que produziu imagens icônicas como o retrato de “Che” Guevara, Guerrillero heróico, de Alberto Korda, antes que ela ganhasse nova vida como propaganda. Essas fotografias anteriores exibidas na galeria transmitem muitas vezes a esperança por uma nova ordem que incluísse a igualdade racial como um objetivo em comum. A série de retratos de um grupo racialmente diverso de veteranos Los veteranos, de Iván Cañas, e a série Los centenarios, de Pedro Beruvides, que mostra rostos de pessoas Negras idosas em close bem fechado, expressam ambas consciência e idealismo.

Photograph courtesy of the Museum of Fine Arts, Houston

Photograph courtesy of the Museum of Fine Arts, Houston

Sem dúvida, o Período Especial constitui o cerne da exposição. Uma época de enormes mudanças sociais, que também anunciou o momento no qual as pessoas que fotografavam em Cuba começaram a atrair uma atenção internacional sustentada, especialmente após a FotoFest de Houston, em 1994, que promoveu a exposição histórica The New Generation: Contemporary Cuban Photography from the Island (A nova geração: fotografia contemporânea cubana da ilha), na Coleção Menil. As primeiras aquisições de obras cubanas do MFAH também datam da FotoFest, mas expandiram-se consideravelmente com a aquisição da Coleção Madeline P. Plonsker, em 2022, – da qual provém grande parte da exposição – e a doação recente de quase 300 obras por parte da família de Iván Cañas. Com esta mostra compacta, a curadoria composta por Malcolm Daniel e Raquel Carrera dá continuidade à tradição de promover a fotografia cubana e artistas da África/América Latina na cidade texana.

A exposiçãoNavigating the Waves: Contemporary Cuban Photography, está em cartaz no Museu de Belas-Artes de Houston, Texas, E.U.A., até o dia 3 de agosto de 2025

Mari Carmen Barrios Giordano é uma escritora, pesquisadora e curadora mexicana. Escreve críticas de arte e ensaios para a ARTnews, Revista Cubo Blanco, Literal Magazine e La Tempestad. Estudou História e Relações Internacionais na Universidade de Stanford e História da Arte na Universidade Nacional Autônoma do México, especializando-se em fotografia latino-americana e arte contemporânea. IG:@mcbg_barrios

* Malcolm Daniel & Raquel Carrera, Navigating the Waves: Contemporary Cuban Photography (Texas: The Museum of Fine Arts, Houston, 2024), 22.

Tradução: Renata Ribeiro da Silva

Leia mais de

Reseñas

A large, irregular art piece covered in vibrant, multicolored, organic textures, suspended above a light-colored floor.

Destaques da C&AL em 2025 que você pode ter perdido

A diptych: above, hands extend from a wall over a table with blue and white pottery; below, an art installation of fruits on rocks.

Retrospectiva 2025

A person in a white dress walks barefoot on a rocky beach, carrying a large bouquet of red flowers, with ocean waves crashing behind them.

Artistas forjam laços ecológicos na fugitividade e quilombagem femininas

Ecologias

Caribbean

Leia mais de

Reseñas

Vibrant artwork featuring stylized birds and creatures composed of intricate patterns, lines, and textures.

Macuxi Jaider Esbell: Uma vida indígena levada pelo extrativismo epistêmico

In Memoriam

Brasil

Black and white group portrait of many formally dressed Black men and one woman posing outdoors.

Paris Noir: Surrealismo, Abstração e Figuração Pan-Africana

Librería Ireti, Havana, Cuba

Livraria Ireti, Havana, Cuba

Na biblioteca

Havana