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Daniela Ortiz: Arte como prática de solidariedade internacional

Folk art painting of two children watering a flowering tree with prominent red roots, above a handwritten caption about anticolonial resistance.

Daniela Ortiz, The Rebellon of the Roots, 2022. Cortesia da artista.

Ao deslocar sua prática da institucionalização em direção à acessibilidade, a artista peruana ancora seu trabalho artístico em lutas históricas de alcance internacional, concebendo a arte como uma pedagogia política ativa.

A conversa com Daniela Ortiz se desdobrou sob o pano de fundo do agravemento da repressão dentro de instituições culturais, nas quais questões como colonialismo, Palestina e violência imperial são cada vez mais recebidas com silêncio ou sanções. Em vez de recorrer à defensiva ou à abstração, Daniela se manifestou com precisão política, ancorando sua prática na história, no internacionalismo e na recusa de eufemismos liberais. O que se segue é um diálogo moldado pela urgência, clareza e por uma compreensão da arte como força ativa nas lutas de libertação.

Desde o início, Ortiz deixou evidente que a censura não pode ser compreendida a partir dos marcos morais familiares do liberalismo ou da democracia- social. Esses marcos, insiste a artista, não são neutros: historicamente, funcionaram como escudos para ideologias supremacistas, coloniais e imperialistas. Ortiz argumenta que a noção liberal de “liberdade de expressão”, longe de ser emancipatória, tem sido repetidamente mobilizada para normalizar o racismo, a islamofobia e a violência colonial. Dentro dessa lógica, posições reacionárias ou fascistas são protegidas, enquanto Estados e movimentos que enfrentam o imperialismo são rotulados como autoritários.

A garland of five textile banners, some with embroidered portraits and others plain, hangs on a blue wall above an open doorway revealing a painting in the room beyond.

Vista da Instalação Blessed Are Those Who Are Persecuted for Righteousness’ Sake, for Theirs Is the Kingdom of Heaven, Kunsthalle Zürich, 2022. Cortesia da artista.

Para a artista, a censura não é um problema moral abstrato, mas um mecanismo concreto de perseguição política. No mundo da arte, isso se manisfesta na exclusão de instituições, na perda de oportunidades de trabalho, no assédio midiático e na perseguição judicial. Ao mesmo tempo, Daniela resiste a enquadrar sua prática a partir da vitimização. Em vez de apelar à simpatia, ela aborda a repressão de forma estratégica. “O que precisamos”, afirmou, “é desenvolver linguagens, metodologias e estratégias que nos permitam continuar fazendo aquilo de que eles realmente têm medo: pedagodia política”.

Essa insistência na pedagogia é inseparável de sua compreensão da história e das rupturas geracionais. Daniela descreve o presente como marcado por uma condição de orfandade política. O panorama cultural neoliberal no qual boa parte da classe artística se formou, argumenta ela, foi construído sobre a destruição violenta da geração anterior de dissidentes, como ocorreu, por exemplo, durante a Operação Condor no Cone Sul.

A large golden-yellow banner with red text "COMUNA O NADA" displayed in an art gallery.

Vista da Instalação Comuna o Nada, esposição A Drop of Milk, Kunsthalle Bern, 2025. Cortesia da artista.

O que precisamos é desenvolver linguagens, metodologias e estratégias que nos permitam continuar fazendo aquilo de que eles realmente têm medo: pedagodia política

A partir dessa perspectiva, sua solidariedade com a Palestina é estrutural, e não simbólica. A artista insiste na recuperação de tradições internacionalistas que foram centrais para os movimentos de libertação até o início dos anos 1980. Essas tradições, nos lembra Ortiz, não eram apenas moralmente poderosas, mas politicamente eficazes, produzindo vitórias concretas como a Revolução Cubana, a independência de Angola e Moçambique, bem como a derrota dos Estados Unidos no Vietnã.

Seu compromisso em se reconectar com essas histórias moldou sua prática desde o retorno ao Peru, após viver na Europa, e a levou a adotar mídias manuais e acessíveis, como a cerâmica, a colagem e os livros infantis, como forma e meios de conscientização. Trata-se de alinhar a linguagem artística aos processos revolucionários. Para Daniela, a busca por formas acessíveis, mas politicamente rigorosas, é central para a prática artística anti-imperialista hoje, como demonstram artistas como Mohammed El-Kurd, Taring Padi e Tings Chak.

A painting of a person with outstretched arms sitting on a tree branch with green leaves and yellow flowers, above text that reads: "Long life and pleasant smell to the spirits that nourished the strength of the Ylang Ylang anticolonial tree."

Instalação, The Rebellon of the Roots, 2022. Cortesia da artista.

Tal ênfase na coletividade também molda sua linguagem visual. Daniela costuma descrever seu trabalho como algo sobre “nós”, e não sobre o “eu”. Por exemplo, após concluir The Rebellon of the Roots (2022), uma pintura sobre a resistência filipina ao colonialismo espanhol, alguém das Filipinas entrou em contato para agradecer a inclusão de uma planta local específica na obra. Esse reconhecimento, segundo Ortiz, abriu um espaço de identificação e compreensão, ou seja, “um caminho em direção à reivindicação anticolonial”, nas palavras da artista.

A língua desempenha um papel crucial nesse processo. Em suas performances com fantoches, Ortiz insiste em trabalhar no idioma local. Quando apresentou pela primeira vez em Belgrado, Serbia, The Root You Pull Out Is Not a Hole In My Hand, It Is a Tunnel! – obra que reivindica a resistência palestina, as lutas de libertação nacional do século XX e o direito à resistência armada – o trabalho foi traduzido ao sérvio. Ortiz descreveu o processo como “tradução política”, não uma diluição, mas uma rearticulação cuidadosa. “Foi um processo profundamente poderoso”, afirmou, demonstrando como o internacionalismo precisa ser construído por meio de atenção, cuidado e especificidade.

Nine circular folk art paintings, depicting people, animals, and text, arranged in a 3x3 grid on a white wall.

Vista da Instalação Sanktionen, exposição A Drop of Milk, Kunsthalle Bern, 2025. Cortesia da artista.

Quando nossa conversa se voltou para as instituições, sua crítica tornou-se mais incisiva. Em contextos ocidentais, argumenta a artista, a maioria das instituições culturais públicas – erguidas sobre o trabalho da classe trabalhadora e a extração colonial – foi absorvida pela engrenagem da produção cultural hegemônica, muitas vezes neutralizando epistemologias que emergem da luta. Para a artista, isso não é acidental. Muitas das mesmas instituições que falam a linguagem da descolonização perseguiram artistas pró-Palestina ou permanceram silenciosamente cúmplices enquanto davam espaço a figuras reacionárias. Tudo isso enquanto os Estados Unidos bombardeiam a Venezuela e impõem sanções a Cuba e ao Irã.

As grandes instituições de arte, sustenta Ortiz, ajudaram a construir a hegemonia cultural que legitima as brutalidades do presente. Ainda assim, a artista insite que a resposta não deve ser a indignação moral ou apelos à vitimização, mas a disputa desses espaços e recursos culturais. Sengudo ela, essas instituições pertencem ao povo – às pessoas trabalhadoras migrantes, à classe trabalhadora e ao Sul Global saqueado. A tarefa é recuperá-las como ferramenteas de organização, libertação e formação ideológica, em vez de permitir que funcionem como espaços de entreterimento e de inoculação mental imperialista. Nessa luta, Daniela não entende a arte como refúgio, mas como arma, sala de aula e memória coletiva.

Daniela Ortiz, A Drop of Milk esteve em cartaz na Kunsthalle Bern, na Suíça, até 8 de fevereiro de 2026.

Sobre o autor

Noushin Afzali

Noushin Afzali é escritora e editora iraniana radicada em Berlim. Sua pesquisa investiga a arte e a cultura contemporâneas a partir de perspectivas feministas e pós-coloniais, além de se interessar especialmente pelas intersecções entre criatividade, crítica social e discurso cultural.

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