Cyle Warner e as transformações das arquiteturas vernaculares caribenhas ao longo do tempo

Cyle Warner, An Approach; on Continuity (Uma abordagem; sobre a continuidade), 2025. Tecido de família em rede de náilon, aço inoxidável, 76 × 66 × 2 pol. Cortesia do artista.
A prática artística de Cyle Warner explora a circulação como um processo de reorganização através da matéria, da memória e do espaço. Utilizando tecidos herdados das mulheres de sua família e formas de cobogós, ele dialoga com Anni Albers, Hélio Oiticica e bell hooks para investigar de que maneira a arquitetura vernacular caribenha reflete as políticas espaciais diaspóricas, a sobrevivência e a transformação ao longo do tempo.
C& América Latina: Quando começamos a conversar sobre o seu trabalho, mencionei a ideia da circulação em relação ao movimento, à memória e à troca de materiais. O que essa ideia lhe sugere?
Cyle Warner: A ideia de circulação ressoa em mim, especialmente como algo que não se dissipa, mas se reorganiza através do tempo, do gesto e da matéria. Meu trabalho não se interessa apenas pelo movimento, mas pela forma como o movimento é mantido, redirecionado e tornado legível através de sistemas espaciais.

Cyle Warner, vista da instalação de My Yard (Meu pátio), 2025. Cortesia do artista.
C& América Latina: Sua linguagem arquitetônica parece preocupar-se menos com a permanência do que com a negociação através de estruturas que permanecem flexíveis e permeáveis. Tenho em mente especialmente as formas dos cobogós.
CW: O cobogó estabelece condições, em vez de determinar resultados. Ele altera a maneira como a luz e o ar circulam pelo espaço, como os corpos se posicionam e como os materiais se comportam quando entrelaçados por suas aberturas. Frequentemente penso em um muro nos arredores de Port Zante, em St. Kitts, tomado pela vegetação: uma estrutura em meio à deterioração que, ainda assim, continua mantendo e organizando o espaço à medida que vai mudando de forma. Em última instância, o framing da linguagem do meu trabalho como uma forma de negociação me parece adequada.
C&AL: O que acho instigante na sua relação com materiais herdados é que o gesto diz menos respeito à preservação do que à reorientação, permitindo que os materiais ultrapassem sua intenção original, ao mesmo tempo em que preservam uma continuidade.
CW: Estou menos interessado no arquivo enquanto lugar de preservação do que como um espaço de circulação da memória, acessada através do uso, do toque e da repetida reorganização do espaço. A maior parte dos materiais na minha prática vem dos tecidos que minha avó e minha mãe compraram para projetos que nunca chegaram a ser concluídos. Quando lido com eles, não fico tentando realizar sua intenção original, mas reorientá-la. Ali, onde o tecido deveria ser costurado, eu o desfio e, em vez disso, o entrelaço. Penso nisso como uma autoria compartilhada entre mim, as mulheres que reuniram esses materiais e os próprios materiais. Seu toque estabelece as condições para uma continuidade que permite que algo novo surja desta base.

Cyle Warner, Shatter Me Upon the Waterfall's Edge (Despedace-me à beira da cachoeira), 2025. Tecido de família em rede de náilon, 144 × 26 × 36 pol. Cortesia do artista.

Cyle Warner, Slip Zone (Zona de deslizamento), 2026. Tecido de família em rede de náilon, 84 × 44 × 2 pol. Cortesia do artista.
C&AL: Ao observar sua prática hoje, em que conversas ou urgências você sente que ela está se inserindo, tanto para você mesmo quanto no diálogo mais amplo da arte?
CW: As questões que orientam meu trabalho atualmente são moldadas, em parte, pelo retorno aos escritos de Anni Albers sobre o “plano maleável”, à descrição que Hélio Oiticica faz de seus Metaesquemas como uma dissecação obsessiva do espaço e ao ensaio Black Vernacular: Architecture as Cultural Practice (Vernáculo negro: arquitetura como prática cultural), de bell hooks. Pergunto-me de que maneira motivos da arquitetura vernacular podem operar como ferramentas de indexação espacial, em que a forma não seja simplesmente referencial, mas organize ativamente as relações entre corpos, movimento e memória. Outra questão que continua emergindo é como a arquitetura pode ser compreendida como algo que as pessoas produzem, e não como algo fixo. Nesse sentido, interessa-me a maneira como a arquitetura vernacular evidencia o engajamento das comunidades diaspóricas caribenhas com as políticas do espaço e como estratégias de adaptação, sobrevivência e transformação se incorporam à forma. No que diz respeito ao diálogo mais amplo, sinto que o trabalho está se inserindo em conversas sobre como compreendemos a memória para além de arquivos fixos e sobre como práticas espaciais podem funcionar como formas de registro. Acho que é aqui que a referência à circulação se torna mais presente para mim, não como um loop fechado, mas como uma contínua reconfiguração.
Cyle Warner é um dos artistas apresentados em Forgotten Lands Vol. 7: Poetics of Architecture. O artista foi cocurador de uma exposição coletiva na Welancora Gallerye participou da exposição de encerramento de sua turma (end-of-cohort exhibition) no Abrons Arts Center, ambas em Nova York, EUA.
Sobre o autor
Sheila Ramirez
Sheila Ramirez dança e canta. É artista e pesquisadora cubano-angolana cuja prática artística abrange performance, vídeo, som e instalação. Colaborou com instituições culturais em Portugal, entre elas o MAC/CCB, o Teatro do Bairro Alto e o Espaço Alkantara, bem como com a NESR Art Foundation, em Luanda, Angola. Atualmente está aprofundando sua formação em dança clássica, dança moderna e em técnicas de dança cubana. Sheila integra a equipe editorial da C&AL.

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