Chavis Mármol: Pensar com as mãos em tempos de inteligência artificial

Chavis Mármol, STRUGGLE FOR EXISTENCE, 2024. Alumínio fundido com acabamento superficial obtido por aplicação de grafite micronizado, 38 x 58 x 33 cm. Cortesia do artista.
Chavis Mármol é um artista mexicano cuja prática se desenvolve por meio de processos exclusivamente manuais em seu ateliê na Cidade do México. Ao combinar iconografia pré-hispânica e cultura pop, e ao recorrer ao humor, sua obra propõe uma crítica ao imperialismo e aos nacionalismos.
Conheci Chaves quando alugava um estúdio na Colonia San Rafael, na Cidade do México. Seu ateliê ficava ao lado do meu. À noite, depois da correria do dia, dos gritos, do barulho de máquinase de ferramentas, às vezes nos encontrávamos no pátio e conversávamoss sobre arte, o mercado de arte e a cena artística da Cidade do México.
Foi nesse convívio cotidiano que pude observar de perto uma ética de trabalho comprometida, que parecia nascer mais do prazer de criar do que de qualquer obrigação. Todo Woooow é o nome de seu ateliê de produção, onde, ao lado de um pequeno grupo de jovens trabalhadores que mais parecem seus cúmplices, produz obras para artistas do México e internacionais com prestígio; ou melhor dizendo, com inserção em um mercado muito mais voraz e vertiginoso.

Chavis Mármol, Las perlas deberían ser eternas, 2025. Fundição em alumínio, obsidiana e grafite micronizado. Cortesia do artista.
Por trás da viralização internacional de sua obra feita de uma Cabeça Olmeca esmagando um Tesla existe uma trajetória sustentada por anos de trabalho de um cara tranquilo e profundamente apaixonado pela matéria e pelo uso de ferramentas. “Meu trabalho é 100% manual; é a maneira como me relaciono com o mundo”, me conta Chavis por videochamada. “Se você cresceu em ambientes mais próximos dos trabalhos operários, aprende a preparar gesso, cimento e a cortar madeira porque são esses os trabalhos que costumamos fazer onde o que se demanda é força de trabalho. A relação com as mãos, com os processos escultóricos e com todo o meu trabalho se desenvolve a partir de uma série de exigências que faço à minha própria obra.”

Chavis Mármol, Neotameme, 2023. Fibra de vidro, pó vulcânico, mármore micronizado e bicicleta de aço-carbono, 17,3 x 15,7 pol. Cortesia do artista.

Chavis Mármol, Neotameme, 2024. Réplica de uma cabeça olmeca em pedra cantera, pesando 9 toneladas, sobre um Tesla Model 3 azul. Cortesia do artista.
Pop situado no pré-histórico
Neotamame (2024) estabeleceu Chavis como uma figura de destaque no mundo da arte. A obra pode ser entendida como uma atualização de Still Life with Stone and Car (2004), do artista estadunidense Jimmie Durham. Valendo-se do humor, Mármol articula elementos visuais da cultura popular e referências pré-colombianas mesoamericanas amplamente reconhecíveis no contexto mexicano, desmontando-os, reorganizando-os e justapondo-os na construção de suas esculturas.
Esse gesto toca um dos eixos centrais da construção do Estado-nação mexicano, que instrumentaliza o passado pré-hispânico para produzir um mito fundacional capaz de produzir orgulho e pertencimento nacional. Ao combinar esses diferentes elementos, o artista cria configurações visuais que lhe permitem refletir sobre questões conjunturais que o atravessam naquele momento. Para Mármol, os produtos culturais estão longe de ser inocentes: eles moldam a forma como compreendemos o mundo.
Volto ao universo pré-hispânico justamente para falar de orgulho, território e identidade mexicana, e também para questionar esses novos mundos que a tecnologia nos apresenta.
Crescer em Apan, no estado de Hidalgo, durante os anos de 1990 foi decisivo para a formação dessa perspectiva crítica. Naquela época predominava a ideia de que toda produção cultural da Minoria Global era superior às expressões culturais da Maioria Global, tal com a cumbia ou o reggaeton. Com a chegada da internet e a circulação massiva de imagens digitais, essa percepção de supremacia começou lentamente a se desfazer, dando lugar a um presente em que qualquer produto cultural inserido nas redes pode alcançar um consumo massivo em escala global. Por meio do que Chavis chama de uma “escuta atenta” dos produtos culturias que consome, ele identifica imagens e elementos nos quais deseja intervir, seja recombinar e materializar em esculturas. “Nós, mexicanos, estamos sempre buscando algum tipo de identidade; recorremos constantemente ao passado para compreender o presente”, explica Mármol. “Volto ao universo pré-hispânico justamente para falar de orgulho, território e identidade mexicana, e também para questionar esses novos mundos que a tecnologia nos apresenta.”

Chavis Mármol, Mr. Olmeca Head, 2023. Resina e pedra vulcânica. Cortesia do artista.
Arte e humor como armas culturais contra os fascismos
Em tempos em que o aparetato hegemônico de propaganda vende um fututo tecno-distópico mediado pela Inteligência Artificial, Chavis constrói sua obra a partir de uma posição de resistência pessoal. A arte aparece como ato de rebeldia diante da aceleração dos tempos políticos que atravessamos.
A escalada dos nacionalismos, dos fascismos e de uma diplomacia estadunidense baseada na ostentação de seu poderio militar inspirou sua nova série de trabalhos. Nela, o artista faz da arte uma arma cultural para confrontar as narrativas hegemônicas de submissão e violência que o chamado Norte Global exerce sobre o chamado Sul Global. Em resposta, o artista volta seu olhar para o contexto local, reconhecendo nas relações recíprocas com a terra uma fonte de potência capaz de cultivar uma identidade própria.

Chavis Mármol, Iron Swords, 2024. Escultura em aço e carvão. Cortesia do artista.
O humor é uma ferramenta amplamente utilizada em contextos latinoamericanos para enfrentar dificuldades e rir das próprias desventuras. “O material e a técnica, o tema que escolho, o humor e o caráter que a obra costuma carregar são elementos cujas presenças procuro garantir no meu trabalho”, afirma Chavis Mármol. “Se eles não se manifestam, a obra não funciona e é retrabalhada.”
Paralelamente, Chavis desenvolve outra série de esculturas que critica o imperialismo e os novos processos de colonização por meio de espetáculos de massa, como o futebol. A série está sendo pensada para ser apresentada durante a Copa do Mundo de 2026, que acontecerá no México, no Canadá e nos Estados Unidos.
Sobre o autor
Esteban Pérez
Esteban Pérez (Quito, 1992) é um artista multidisciplinar que vive em Berlim. Seu trabalho utiliza estratégias processuais para explorar as relações entre a natureza, a tecnologia e os seres humanos por meio de vídeo, som, objetos e instalações.

Archivo Honduras Cuir: A arte da amizade e da vida trans na América Central

Iahra: Abordando questões de ecologia marinha através de materialidades industriais

A convergência das vidas africanas e indianas nas pinturas de Kelly Sinnapah Mary

Transformando as memórias da violência estatal por meio da justiça poética

Seed Archives: Celebrando o design e as culturas africanas e caribenhas em Londres
