Artistas forjam laços ecológicos na fugitividade e quilombagem femininas

Deborah Jack, the water between us remembers, so we carry this history on our skins, long for a sea-bath and hope that the salt will heal what ails us (a água entre nós recorda, então carregamos essa história em nossas peles, ansiamos por um banho de mar e esperamos que o sal cure o que nos aflije), 2018. Vídeo colorido de canal único, 15 min, 42 s Cortesia da artista.
3 Dezembro 2025
Revista América Latina
Palavras Lauren Baccus
Tradução Renata Ribeiro da Silva
5 min de leitura
Juana Valdés, Deborah Jack e Jamilah Sabur reinterpretam o Caribe como um local de memória ecológica e resistência. Valdés investiga a migração e a identidade afro-cubana usando a água como metáfora de deslocamento e cura; Jack utiliza o sal para evocar o mar como testemunha do trauma climático; e Sabur recorre à geologia e à linguagem a fim de escavar histórias negras e indígenas submersas, definindo a quilombagem como fuga física e transformação temporal.
Por séculos, as paisagens do Caribe – manguezais, montanhas, cavernas e cursos de água – foram santuários para as comunidades quilombolas em busca da liberdade para além do domínio colonial. Hoje, mulheres artistas caribenhas reimaginam esses locais como espaços de fugitividade e possibilidade, tratando as ecologias em transformação como bases para autonomia, memória e futuros especulativos.
Nas sociedades indígenas e afro-diaspóricas as mulheres têm sido, há muito tempo, as principais guardiãs da agricultura sustentável, do conhecimento sobre plantas medicinais e da administração de recursos, habilidades vitais para a resiliência da comunidade. Apesar da colonização e do patriarcado, esse conhecimento foi preservado e transmitido às próximas gerações através de tradições orais, aprendizados casuais e rituais sagrados. Juana Valdés, artista nascida em Cuba e criada nos Estados Unidos, investiga a migração, raça e legados coloniais através da materialidade, focando nas mulheres como guardiãs e gestoras do conhecimento ecológico. Sua instalação em escultura The Journey Within (A jornada interior, 2003) apresenta aproximadamente 100 delicados barcos brancos de porcelana forjados como chapéus feitos em dobradura. Dispostos em grupos à semelhança de flotilhas, os barcos remetem a um deslocamento coletivo, suas formas frágeis espelham o estado vulnerável das pessoas que empreendem viagens perigosas cruzando mares e oceanos. O título da obra apresenta a migração não apenas como uma travessia física, mas também como uma profunda transformação interna.

Juana Valdés, The Journey Within (A jornada interior, 2003). Cerâmica (barcos moldados em porcelana). Dimensões variadas, 5 x 7,6 x 12,7 cm cada (100 no conjunto). Foto: Zachary Balber.

Juana Valdés, Otra vez al mar, 1994. Técnica mista (vestido de organza, luz, rede de pescar, anzóis, chumbo e áudio), 1,83 x 2,44 x 1,83 m. Foto: Zachary Balber.
De forma semelhante, Deborah Jack, nascida em St. Maarten, vê o mar como testemunha e agente na sobrevivência insular, utilizando instalações multimídia para refletir sobre os impactos da escravidão, dos furacões e da vulnerabilidade ecológica. Em sua instalação shore (litoral, 2018), Jack mergulha o público em uma paisagem pós-furacão, utilizando o sal de salinas históricas, cuja presença tem um duplo propósito: remeter ao passado colonial da ilha, quando a produção de sal era uma indústria central associada à exploração e ao comércio, e destacar a vulnerabilidade contínua das costas do Caribe devido aos furacões. Em sua obra sonora the water between us remembers... (a água entre nós recorda..., 2016), Deborah Jack retorna ao mar como material de origem, utilizando gravações de ondas e tempestades para evocar sentimentos de Diáspora vividos por pessoas separadas de suas terras natais pelos mesmos corpos de água que um dia as transportaram.
Assim como o oceano carrega a memória coletiva, as paisagens do Caribe também preservam saberes corporificados, muitos deles fundamentados nas tradições de cura das mulheres. As economias de plantação, dependentes do cultivo forçado, remodelaram as ecologias e submeteram as mulheres negras ao trabalho árduo e à vigilância constante. Contudo, o conhecimento botânico e de cura das mulheres se tornou uma ferramenta essencial para a quilombagem e a resistência sutil. Tanto Valdés quanto Jack resgatam essas histórias, transformando a paisagem de um local de extração em um contra-arquivo vivo, onde plantas, sal e sedimento transformam-se em testemunhas e colaboradores.

Deborah Jack, shore (litoral), 2004. Vista de shore em videoinstalação em três canais na Galeria Big Orbit, em Buffalo, Nova York. O espaço foi preenchido com cinco toneladas de sal-gema e um espelho d'água de 12 x 6 m. A obra faz referências visuais a furacões atlânticos, à escravidão e ao mar, que estão conectados pela agressão como um catalisador para o trauma histórico. O ciclone é visto como um memorial natural para corpos perdidos no mar durante a Travessia do Atlântico. Cortesia da artista.

A artista jamaicana Jamilah Sabur utiliza a geologia como metáfora e método para acessar histórias submersas e imaginar novas formas de pertencimento. Sua prática engloba performance, instalação, vídeo e texto, traçando conexões entre o fundo do oceano, o espaço sideral e as experiências de mulheres Negras do Caribe. A fascinação de Sabur pelas formas geográficas (escarpas, bacias e rochas vulcânicas, entre outras) é articulada em sua exposição Hammer Projects no Museu Hammer, em Los Angeles (2019), onde a escarpa se torna uma metáfora para a origem e a história estratificada. Sabur chama atenção para como a superfície da terra guarda vestígios do tempo, movimento e transformação, especialmente histórias humanas marcadas por migração, trauma e resiliência. As camadas de rocha em uma escarpa espelham as camadas de memória, sugerindo que nossas origens pessoais e coletivas são construídas através do tempo, moldadas por forças visíveis e ocultas. Esse envolvimento com o tempo geológico enquadra a quilombagem como um processo sísmico contínuo, de cataclisma e criação, metáfora da própria terra em movimento.
A obra de Sabur também lida profundamente com as políticas de nomeação e linguagem, uma extensão de sua atenção ao tempo profundo. Durante uma residência no Museu de Arte Crisp-Ellert, em St. Augustine, Flórida, Sabur estudou a língua extinta Timucua, encontrada em textos franciscanos de 1612. Quando ela se tornou uma cidadã estadunidense, Sabur mudou seu segundo nome para Ibine-Ela-Acu, que significa "Água Sol Lua" em Timucua, um gesto de memória e recusa em face do apagamento colonial.

Jamilah Sabur, an antipode, a stairway, a spectral standard from Arabic At-Tinnin (um antípoda, uma escadaria, um padrão espectral do At-Tinnin árabe), 2023. Impressão a jato de tinta emoldurada, com neon e alumínio, 86 x 86 cm. Cortesia da artista e Copperfield, Londres.

Jamilah Sabur, Un chemin escarpé (Um caminho íngreme), 2018. Videoinstalação em cinco canais, cor, som, 11min 38 s. Vista da instalação do Museu Hammer, Los Angeles. Foto: Jeff McLane, 2019.
A vulnerabilidade ecológica do Caribe, enraizada em séculos de extração colonial e hoje agravada pela mudança climática, ameaça não apenas suas paisagens frágeis, mas também a rica memória cultural e as longas histórias de resistência da região. O desmatamento generalizado e o esgotamento do solo causados pelas plantações de açúcar da era colonial deixaram muitas ilhas suscetíveis à erosão e aos danos causados por furacões, além de apagar as práticas tradicionais do uso da terra e o conhecimento ecológico indígena. Em ilhas como Martinica e Guadalupe, a contaminação remanescente de pesticidas utilizados na era colonial, como a clordecona continua a envenenar a terra e a prejudicar a agricultura local, comprometendo a segurança alimentar e as tradições agrícolas ancestrais. No litoral, o aumento do nível do mar e tempestades cada vez mais intensas ameaçam submergir os locais históricos costeiros e cemitérios ancestrais, colocando em risco marcos tangíveis da vida indígena e afro-caribenha.
Artistas como Deborah Jack, Jamilah Sabur, e Juana Valdés respondem às vulnerabilidades da região criando obras que quebram as narrativas coloniais e lineares, apresentando o Caribe como um espaço dinâmico de negociação – onde a memória e a relação se tornam estratégias de transformação em meio à constante incerteza histórica e ecológica.
Sobre o autor
Lauren Baccus
Lauren Baccus é escritora, educadora e pesquisadora independente. Suas obras exploram a construção da identidade do Caribe por meio de têxteis, trabalhos manuais e da cultura material. Ela participou do CCI x C& Workshop de Escrita Crítica.

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