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Archivo Honduras Cuir: A arte da amizade e da vida trans na América Central

A woman with dark hair pulled back, wearing a colorful cardigan and red earrings, looks down at a book she holds. A man with a microphone is in the background.

Abigail Galindo Soto no Centro Cultural da Espanha em Tegucigalpa, durante eventos organizados em parceria com o Archivo Honduras Cuir para difundir a memória cuir entre jovens da cidade. Foto: Dany Barrientos Ramírez

A arte de Abigail Galindo consiste em capturar momentos de beleza desafiadora diante da hiperviolência que ronda pessoas trans na capital hondurenha, Tegucigalpa, e seus arredores. Em meio a tamanha impunidade jurídica, amizades posam para a câmara. Essas poses revelam os papeis da imagem e do olhar nas construções de gênero e identidade. Os retratos nos colocam frente a subjetividades cuir e trans, oferecendo-nos um olhar terno e destemido.

Galindo contribuiu com mais de mil imagens e documentos para o Archivo Honduras Cuir (AHC), que cofundou ao lado Dany Barrientos-Ramírez. Desde sua primeira publicação e exposição no Centro Cultural da Espanha em Honduras, em 2023, o arquivo continua crescendo graças ao trabalho de diverses voluntáries. Em 2025, foi apresentado no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago do Chile, no MACBA, em Barcelona, e no Reino Sofía, em Madri, Espanha. Neste ano, o coletivo planeja realizar o primeiro encontro centro-americano de arquivistas trans e, em 2027, uma segunda exposição.

Sua obra e o AHC testemunham o poder da arte e dos círculos de amizades na luta contra a rasura de vidas trans.

A woman in a blue floral dress reclines on a sofa inside a home, framed by an open doorway with a sign above reading "FAM. GALINDO SOTO DIOS NOS GUIA".

Abigail Galindo Soto na sala de sua casa, a mesma casa onde viveu com sua família durante a infância e onde hoje acontecem muitas das sessões de trabalho do Archivo Honduras Cuir. Foto: Dany Barrientos Ramírez

A woman in a light blue dress with colorful floral embroidery stands in a kitchen.

Abigail Galindo Soto na cozinha de sua casa. Foto: Dany Barrientos Ramírez

C& América Latina: Gostaria de começar pelo nascimento do Archivo Honduras Cuir. Como foi o encontro com Dany?

Abigail Galindo: Conheci Dany por meio de uma amiga trans advogada. Ele estava procurando mulheres trans com mais de 50 anos, já que, aqui em Honduras, a expectativa de vida de uma mulher trans é de apenas 35 anos. Nós, com 50,já somos consideradas da terceira idade. E foi assim que marcamos de nos encontrar.

Levei 132 fotografias, e ele gostou delas. Então, de repente, me disse: “Olha, nós não nos conhecemos, mas eu gostaria que você me emprestasse essas fotografias.” Dany estava indopara a Argentina estudar como criar um arquivo cuir. E eu fiquei pensando: se eu morrer, essas fotos vão ser queimadas ou jogadas fora, porque não são imagens que minha família gostaria de guardar. E então, assim, do nada, aparece Dany! Naquele momento pensei: elas não poderiam ficar em mãos melhores.

Ele voltou justamente na época em que eu estava hospitalizada, em julho, quando amputaram meu pé esquerdo, e ele me acompanhou feito um anjo, sempre ao lado da minha cama no hospital.

A person in a hospital gown and mask lies in bed with an IV drip stand beside them.

Abigail Galindo Soto no interior de um hospital público de Tegucigalpa, após sofrer uma pneumonia que a deixou internada por vários dias em maior de 2025. Foto: Dany Barrientos Ramírez

C&AL: Como você começou a tirar fotos e quantas fotos você tem atualmente?

AG: Em 1986, aos 16 anos, saí de casa para viver como mulher trans. Foram ali os meus primeiros passos no ativismo. Peguei uma câmera, lembro que era uma câmera analógica que meu irmão comprou pra mim.

Na verdade, eu não sabia que o que o que estava fazendo era documentar minha vida, a vida das minhas amigas e toda um época! Só mais tarde percebi o que vinha registrando. Depois comecei a trabalhar com comércio sexual e andava sempre com minha câmera, como uma verdadeira detetive particular, fotografando não apenas os momentos tristes, mas também nossos momentos de felicidade.

Surgiu em mim a necessidade de fotografar minhas amigas por causa da insegurança no país, porque eu via as meninas saírem, mas não as via voltarem, ou apareciam mortas... E eu sempre dizia a mesma frase: “Cipotas [meninas], uma foto... e se essa for a última?”

E aquilo era tão real... Encontrei Caricia, como eu a chamava, numa festa: “Caricia, vem cá, eu não tenho nenhuma foto com foto com você, vamos tirar uma; e se essa for a última?” E duas semanas depois ela apareceu assassinada com 25 tiros, porque a nós não nos matam com uma facada, um tiro ou uma pedrada. Nos destroem, nos esquartejam, porque fazem isso com crueldade, porque são crimes de ódio, porque quem nos assassina nos odeia.

Four individuals in feminine attire and makeup pose outdoors at night, three seated on a bench and one standing.

Da esquerda para a direita: La Sulay (também conhecida como La Campero, que vive no exílio), Bessy Ferrera (assassinada em 2019, vítima de um crime que segue impune), Abigail Galindo Soto e Michelle (assassinada na Guatemala, vítima de um crime que também segue impune). As quatro mulheres posam em um banco do parque El Obelisco, em Tegucigalpa, durante uma noite de trabalho, em 1992. Foto: Fundo Documental Abigail Galindo Soto / Archivo Honduras Cuir

C&AL: Por favor, nos conte mais sobre as demais pessoas integrantes do arquivo e suas dinâmicas.

AG: Somos praticamente um tutti-frutti, porque temos cineastas, pessoas garífunas voluntárias e biculturais, pessoas de diversas sexualidades... Agora mesmo temos duas que são as mais jovens: uma menina bissexual e uma lésbica, que é a mais nova de todas. Elas começaram como voluntárias e hoje já fazem parte do arquivo.

Digo que a convivência é muito importante. Respeitamos o tempo individual de cada pessoa, não somos autoritáries... Este ano vamos fazer uma viagem pela nossa própria saúde mental; vamos para um lugar de descanso, todas, todos e todes.

C&AL: Você comentou acerca do Primeiro Encontro de Arquivistas da Memória Trans Centro-América 2026. Que outras metas vocês têm para o Archivo Honduras Cuir?

AG: De 5 a 11 de julho vamos receber um monte de mulheres aqui... Meu maior desejo e também meu maior sonho é ter um espaço físico onde possamos guardar todos os materiais, isto é, todo o nosso acervo, e que ele seja bem cuidado. Hoje ainda não temos um espaço físico adequado: parte do material está na casa de Dany e outra parte está aqui comigo. Nenhum desses lugares oferece as condições ideais para a conservação de fotografias.

Sobre o autor

José Segebre

José Segebre é organizador especializado em estética e crítica interseccional. Sua monografia sobre a espera, Waiting and Watching (Bao Books), e um livro colaborativo sobre o filme cuir Flaming Ears (1992) serão publicados em 2026. Foi professor convidado de cinema e arte contemporânea. Atualmente, ensina teoria da arte na NYU Berlim. Cofundou a Associação Acadêmica de Pessoas Palestinas e Judias na Alemanha (2025) e, desde 2019 organiza o Fool Moon Screening junto com François Pisapia, que consiste em jantares itinerantes com projeção de filmes.

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