A representação dos desejos comunitários na obra de Jeff Cán Xicay

Jeff Cán em colaboração com a Associação Comunitária Kaqjay, vista da instalação Ri qa rayb'äl / Nossos desejos, Museu Nacional de Arte da Guatemala (MUNAG), 2025. Cortesia da Fundação Paiz / 24a Bienal de Arte Paiz. Foto: Byron Mármol.
5 Março 2026
Revista América Latina
Palavras Jimena Galán Dary
Tradução Renata Ribeiro da Silva
6 min de leitura
Jeff Cán Xicay é artista e tecelão Maia Kaqchikel. Na 24a Bienal de Arte Paiz, na Guatemala, Jeff exibiu sua obra Ri Qa Ray’bäl (Nossos desejos), uma instalação realizada em colaboração com a Kaqjay, uma associação comunitária Kaqchikel. A obra reúne fotografias do arquivo local, conversas com as avós da comunidade, tecido, pedras e elementos vinculados à casa e ao espaço cerimonial.
Esta conversa começou em uma visita a Patzicía, em Chimaltenango, Guatemala, e em um diálogo mantido ao longo do tempo. Escolhi o formato de entrevista para que o próprio Jeff fale sobre a responsabilidade de levar um processo comunitário a um espaço institucional, o território e os desejos que permeiam a obra.
C& América Latina: Quando soube que ia participar da Bienal, você pensou logo em Patzicía. O que significa apresentar essa peça nesse contexto?
Jeff Cán Xicay: A primeira palavra é responsabilidade. Minha obra é concebida em Patzicía. Exercito contar às pessoas o que faço, pois elas me conhecem, sabem que sou um rapaz que tece, que toca marimba ou tambor nas procissões. Elas veem que faço coisas e que há uma resposta em outros lugares e de outras pessoas.
Elas também me olham com distância. São o público mais difícil. Está presente o sarcasmo de se entenderem como iguais e de pensarem que o que falo sobre o povo pode ser balela, referindo-se ao fato de eu exagerar ou ser fanfarrão. Na minha obra Muxux (2025), por exemplo, que faz referência à tradição de enterrar nosso umbigo ao nascer. As pessoas fazem isso de forma natural e cotidiana, não veem isso como algo romântico nem como arte, e dão risada. Mas podem, sim, chegar ao ponto de compreender. Lembro-me de que um dos líderes da confraria me dizia que “entendeu tudo” e começava a me explicar como estava o k’an naquela peça. Essa foi uma leitura daqui de Patzicía.
Quando cheguei à Bienal, pensei em Carlos Nicolas Choc, que também é de Patzicía e participou de uma edição anterior do evento. Pensei muito na instituição. Gostamos de entrar e sair dela. É como um jogo. Sua obra se chamava El niño del Santísimo. A obra me deu uma noção de como falar do povo e ela também medo da forma de narrá-lo.
Vou fincar minha estacas, minhas pedras e minha faixa aqui.
Hoje, a Bienal se inscreve em um exercício histórico no qual Carlos Nicolas esteve, e eu, Jeff, estou agora. Duas pessoas que estiveram nesse espaço institucional que nos é alheio. Temos a responsabilidade de escolher bem as palavras. Não gostaria que, na comunidade, dissessem: “Nós não entendemos, mas com certeza as outras pessoas vão entender”. Gostaria de trazer todo mundo para cá, parar e dizer: “Aqui estamos”. Um marco estabelecido.
Sempre digo que me instalo como um acampamento. Penso no Memorial de Sololá, o manuscrito que conta a história e a mitologia do povo Kaqchikel, onde consta: “Assentaram seus escudos e arcos nestes vales e montanhas”. Essas primeiras pessoas se estabeleceram como exploradoras e migrantes que vão conhecendo o mundo. Na obra, Ri Qa Ray’bäl (Nossos desejos), eu disse: “Vou fincar minha estacas, minhas pedras e minha faixa aqui”.

Jeff Cán em colaboração com a Associação Comunitária Kaqjay, vista da instalação Ri qa rayb'äl / Nossos desejos, Museu Nacional de Arte da Guatemala (MUNAG), 2025. Cortesia da Fundação Paiz / 24a Bienal de Arte Paiz. Foto: Byron Mármol.

C&AL: Você disse que esses desejos são pensados para “as pessoas que vêm depois”. Que lugar o futuro ocupa na maneira como se vive e se pensa o presente em Patzicía?
JCX: Uma amiga me escreveu que a obra se estabelece como um mokan – um espaço habitacional para um objeto sagrado – destinado à energia do desejo coletivo. A principal noção é que as pessoas de Patzicía podem ter desejos e pensar a si mesmas a partir do tempo futuro. Nós indígenas também pensamos no futuro como qualquer outra pessoa. Isso é político.
Ao entrar e poder habitar as casas das pessoas, você percebe que elas não só têm o direito, mas que reivindicam o fato de habitar o desejo e o futuro. Nana Juana, uma avó, me disse: “Eu já me vou, mas isso é para as pessoas que vêm depois”. São elas que vão herdar o comunidade.
C&AL: Você inclui fotografias do arquivo Kaqjay tiradas por fotógrafos do povo. O que significou para você trabalhar com essas imagens?
JCX: Fiz a curadoria das fotografias com um amigo, Edi Tocón. Muitas fotos foram tiradas nos pátios das casas. Chamaram um fotógrafo porque queriam preservar sua vida no tempo. Reuniam a família ou o casal, e usavam inclusive roupas novas. Todas as imagens remetem à memória das pessoas e as ajudam a se reconhecer na instalação. No Dia dos Mortos, lhes ofereci flores e comida. Agora que está chegando a tapizca, o dia da colheita do milho, vou levá-lo também como oferenda.
Houve fotos que não selecionamos, porque poderiam gerar uma outra leitura dos povos indígenas. Uma avó com seu milho, ou, não sei, uma foto da festa do povo. Somos nós que nos fotografamos, nos vemos e nos recordamos. Penso em uma frase que dizemos muito Ojk’o Wawe', que significa “estamos aqui”. Somos gente de Patzicía.

Jeff Cán em colaboração com a Associação Comunitária Kaqjay, vista da instalação Ri qa rayb'äl / Nossos desejos, Museu Nacional de Arte da Guatemala (MUNAG), 2025. Cortesia da Fundação Paiz / 24a Bienal de Arte Paiz. Foto: Byron Mármol.
C&AL: Você mencionou a frase “sobre paus e sobre pedras”. O que isso significa para você?
JCX: Quando terminava um bordado que havia custado meses, minha mãe dizia: “chuwa’ che’, chuwa’ ab’äj”, que quer dizer “já terminei, já se acabou, sobre paus e sobre pedras”. Algo que lhe custou dor, tempo e luta. Este foi um ano de muitos aprendizados, dores e dificuldades. Aqui, tecer é difícil. Não se vive da arte, faz-se por desejo. O que entregamos custou para ser feito.
A 24ª Bienal de Arte Paiz A Árvore do Mundo pôde ser visitada na Guatemala, entre os dias 6 de novembro de 2025 e 15 de fevereiro de 2026.
Sobre o autor
Jimena Galán Dary
Jimena Galán Dary (1997) é curadora feminista e gestora cultural guatemalteca. Seu trabalho articula arte, memória e processos coletivos a partir de uma prática e um conhecimento situados no território. É cofundadora de La Revuelta, coletivo feminista onde acompanha processos artísticos e formativos com mulheres e dissidências e desenvolve arquivos acessíveis vinculados a memórias comunitárias.

Retificando a ausência da América Latina nos debates sobre arte afrodiaspórica

Sou monumental: o poder das raízes africanas

Jesús Hilário-Reyes: Dissolvendo noções de grupo e indivíduo

Biophillick: conectando ancestralidades através de tecnologias

As viagens ancestrais de Gladys Kalichini e Maritea Dæhlin
