A ficção científica de amor indígena sobre a crise climática e o poder da linguagem: Itu Ninu

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
21 Julho 2026
Revista América Latina
Palavras Will Furtado
Tradução Renata Ribeiro da Silva
8 min de leitura
O filme Itu Ninu, de Itandehui Jansen acompanha duas pessoas indígenas refugiadas devido ao clima, que vivem sob vigilância constante e se comunicam apenas por meio de cartas escritas à mão em mixteco. Ambientado em 2084, o filme de ficção científica reinterpreta muitas das ansiedades tecnológicas e ecológicas de hoje, reafirmando a importância crucial das relações offline e da preservação de nossas culturas e de nossas terras.
Muitas pessoas da Diáspora sabem que falar nossa língua nativa é um elemento muito importante na manutenção do senso de identidade e pertencimento. Em muitos casos, porém, temos de encontrar outras maneiras de fazer isso, quando por exemplo, não as podemos falar coletivamente. “Aprender uma língua sem uma comunidade é muito difícil”, diz Itandehui Jansen em nossa conversa via Zoom sobre falar nossas línguas indígenas como povos da Diáspora. Itandehui Jansen é uma diretora de cinema cuja mãe é do México. Quando a mãe da cineasta se mudou para os Países Baixos, começou a se sentir muito isolada devido à falta de pessoas com quem praticar seu mixteco, um idioma indígena do sul do México.
Essa história foi, em parte, a inspiração para o filme de Itandehui Jansen, Itu Ninu, cujo título significa “um milharal lá no alto (das montanhas)” em mixteco. O filme acompanha o relacionamento entre duas pessoas refugiadas do clima em um país ocidental não identificado. Elas vivem sob intensa vigilância e só podem se comunicar por meio de cartas escritas à mão. Este é o primeiro filme de ficção científica dirigido por Itandehui Jansen. Ele foi escrito por seu marido e colaborador de longa data Armando Bautista Garcia, que também atua no filme.

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
Embora ambientado em 2084, os temas e histórias de Itu Ninu parecem infelizmente muito próximos da realidade de 2026: o conhecimento ecológico é extraído dos povos indígenas, as pessoas refugiadas devido ao clima são forçadas a viver sob um monitoramento digital onipresente, e vivem em isolamento, mas com pouca privacidade. “O filme começou originalmente como uma história sobre uma pessoa migrante se sentindo isolada em uma casa inteligente, que, de certa forma, trabalhava contra ela”, explica Jansen, falando direto da Escócia, onde vive e leciona cinema na Universidade Napier de Edimburgo. “E, aqui na Grã-Bretanha, há essa lei terrível que determina que todas as pessoas que solicitam asilo sejam rastreadas digitalmente. E eu pensei, bem, isso é muito distópico. Então todos esses elementos começaram a entrar no filme e aí decidimos transformá-lo em ficção científica.”
O filme começa com uma cena em que Ángel, interpretado por Armando Bautista, toma banho com um olhar vazio, enquanto ouve lembretes em uma espécie de smart watch – a “pulseira inteligente do visto”. Ángel é constantemente lembrado de que não pode consumir mais água do que sua cota diária, de que deve usar sua pulseira o tempo todo, de que ela registra o ambiente a seu redor em som e vídeo, e de que ele não pode falar ou trocar material orgânico com pessoas não autorizadas. Tudo isso sob a ameaça de perder seu visto e ser deportado.

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
A vida cotidiana de Ángel é monótona e solitária. Na maior parte do tempo, ele transita entre sua casa e o trabalho, onde cataloga sementes indígenas em risco de extinção para seu empregador ocidental. A monotonia de sua rotina só é quebrada por seus encontros secretos com Sofia, interpretada por Alejandra Herrera, outra refugiada climática do México, que trabalha arduamente em uma unidade de reciclagem. Como todos os seus movimentos são registrados, não podem conversar durante seus encontros secretos, e, portanto, só se comunicam por meio de bilhetes escritos à mão em mixteco.
Embora não seja fluente em mixteco, Jansen fez outros filmes nessa língua, incluindo seu primeiro filme, El Rebozo de mi Madre (O xale de minha mãe), no qual trabalhou em conjunto com sua própria mãe, Aurora Pérez Jiménez. “Ela fez as entrevistas e quase toda a gravação de som. Gravou a maior parte das entrevistas em mixteco, no caso de a primeira língua da pessoa entrevistada ser mixteco”, recorda ela. “Editei aquelas entrevistas com base no meu conhecimento de certas palavras e da cadência da língua, pois convivi com ela o suficiente para entender quando alguém termina uma frase.” Itandehui Jansen é uma prova viva de que não precisamos falar nossas línguas nativas perfeitamente para nos envolver com nossas culturas indígenas e mantê-las vivas.

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
Trabalhar de forma orgânica e com a família é natural para Jansen, e essa relação provou ser recíproca e simbiótica. A mudança climática, por exemplo, sempre foi uma preocupação para Jansen, tanto como tema quanto como prática ambiental, mas seu filho de 18 anos a incentivou a assumir uma postura ainda mais rigorosa em relação à pegada de carbono da produção cinematográfica. “Eu tenho realmente que dar o crédito a meu filho. Ele quer ser cientista ambiental e, desde muito cedo, decidiu ser vegetariano e se preocupava com a biodiversidade”.
O capitalismo extrai tanto das comunidades e da natureza quanto de quem trabalha. Na história do filme, portanto, temos uma corporação que quer lucrar com as sementes, mas também com o conhecimento de Ángel. É uma força que nunca vemos no filme, mas é algo sobre o qual realmente refletimos.
Isso significa que Itu Ninu teve um orçamento de produção muito baixo. O filme foi feito com métodos de baixa tecnologia, os materiais foram adquiridos em lojas beneficentes, a equipe andou até as locações e todo mundo recebeu uma remuneração justa. “Em nossa pesquisa, observamos como plantas diferentes estão ameaçadas, especialmente na natureza”, explica Jansen. “O capitalismo extrai tanto das comunidades e da natureza quanto de quem trabalha. Na história do filme, portanto, temos uma corporação que quer lucrar com as sementes, mas também com o conhecimento de Ángel. É uma força que nunca vemos no filme, mas é algo sobre o qual realmente refletimos.”

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
A crítica de Jansen ao capitalismo contemporâneo se manifesta também em outros aspectos formais do filme, como o seu ritmo. Digo a ela que, como espectadore, me vi seduzide a desacelerar e a praticar a paciência. Do início ao fim, o filme tem um caráter contemplativo. Cada cena se desenrola lentamente e muitos closes de rostos, plantas, da natureza e outros detalhes funcionam como transições suaves. “Sinto que há pressão para que façamos tudo cada vez mais rápido o tempo todo, porque precisamos ter alta produtividade”, continua ela. “Não há tempo para descansar, não há tempo para recarregar, não há realmente tempo para nada. Estamos quase nos viciando no ritmo acelerado. E eu só quis ser radical em relação a isso e fazer algo com um ritmo bem lento.”
Mas ainda há outra razão muito importante para o ritmo lento: o idioma! Como todos os diálogos são narrados em mixteco, foi necessária a inclusão de legendas. “A leitura das legendas tem um determinado ritmo. Se é tudo muito rápido, você perde a imagem ou perde os sons”, explica ela. “Então tentei criar espaço para o público ser capaz de aproveitar o filme e ainda ler as legendas e ouvir as vozes.” A diretora também explicou que, pelo fato de existirem diferentes variações do mixteco, devido à enorme extensão da região onde o idioma é falado e seu relevo montanhoso, mesmo sua avó precisaria de legendas.

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
Seu marido Armando Bautista Garcia também fala mixteco. “O complicado”, avisa ela, “é que o mixteco dele é diferente do da minha mãe. Ela e ele podem ter conversas maravilhosas sobre o que é semelhante e o que é diferente, mas normalmente conversam entre si em espanhol. Vou dar um exemplo bem simples: o mixteco da minha mãe diz que seu povo é ‘o povo da chuva’ e isso se diz ‘sahìn sàu’. Já no mixteco do meu marido diz-se exatamente a mesma coisa, mas para isso se utiliza o termo ‘da davi’.”
Embora as línguas indígenas sejam marcadores culturais e práticas de resistência, elas também continuam a ser ferramentas de comunicação. Como ferramentas, seu uso se resume a como e onde elas são utilizadas. Os resultados, porém, variam de acordo com o contexto e isso também faz parte da mágica e do poder de Itu Ninu. Quando o filme foi exibido em uma comunidade agrícola que fala mixteco, na Califórnia, Estados Unidos, o público se identificou fortemente com o personagem de Ángel pela forma como ele preserva as sementes indígenas no filme. “Essa comunidade tinha ou veio de fazendas no México e trabalha com sementes geneticamente modificadas em fazendas nos Estados Unidos”, recorda Jansen. “E as pessoas estavam preocupadas que essa fosse uma das razões pelas quais as sementes de milho que trouxeram de casa estavam tendo dificuldade de crescer em seus próprios quintais na Califórnia.”

Fotografia still do filme Itu Ninu, 2023, dirigido por Itandehui Jansen. Cortesia da produção do filme.
Essa ansiedade ecológica e existencial também se reflete em Itu Ninu. Durante o filme inteiro, Ángel e Sofia cultivam sua amizade e romance em suas escapadas silenciosas, às vezes, na cidade, às vezes, na natureza, por meio das cartas em mixteco, que leem solitariamente em suas respectivas casas. Mas o espectro da vigilância e da potencial deportação punitiva assombra cada um de seus movimentos.
Em Itu Ninu, a tensão é visualizada em uma narrativa distópica que não é estranha ao público de hoje. Qualquer pessoa com um smartphone conhece a sensação de que nossas conversas são monitoradas quando nos confrontamos com um anúncio do exato produto sobre o qual falamos momentos antes. Ou quando refreamos o impulso de postar conteúdo crítico contra governos fascistas por medo de retaliação. Ao mesmo tempo, Itu Ninu também aponta de maneira poética para algumas das poucas coisas que sempre se contrapuseram ao regime da modernidade: como escapar secretamente do sistema ao criar uma comunidade offline, ao honrar nossas línguas indígenas e ao proteger a terra com todos os riscos que isso acarreta, porque devemos; porque é nossa única escolha se quisermos manter nosso planeta vivo.
Itu Ninu faz parte de Material Fabulations: Afro-Indigenous Film Directors from Latin America, um programa de cinema curado por Will Furtado, da C&AL, para o Cinelogue. Disponível em cinelogue.com.
Sobre o autor
Will Furtado
Will Furtado é editore-chefe da C&AL.

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