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Retrospectiva 2025

A diptych: above, hands extend from a wall over a table with blue and white pottery; below, an art installation of fruits on rocks.

Acima: Pure (Puro), 2016. Cortesia da artista. Abaixo: Edgar Calel, vista da instalação, Ru k’ox k’ob’el jun ojer etemab’el (O eco de uma antiga forma de conhecimento), 2021. Frutas e pedras, Proyectos Ultravioleta - Frieze London. Cortesia do artista e Proyectos Ultravioleta, Cidade da Guatemala. Foto: Lisa Gordon.

16 Dezembro 2025

Revista América Latina

Palavras Will Furtado

Tradução Renata Ribeiro da Silva

4 min de leitura

Rever o ano que se acaba não é uma tarefa fácil, mas muito necessária na construção de mundos. Para o povo de Abya Yala/Pindorama, a memória é uma tecnologia que nos permite manter os pés no chão e em comunhão com nossos ancestrais do passado e do futuro. A arte é parte integrante dessa tecnologia e artistas são a cola que conecta as pessoas com sua cultura – material, espiritual e de outras naturezas.

Neste ano, demos início a uma série sobre profissionais de curadoria, a fim de dar destaque a quem investe em comunidades locais e expande o âmbito do que a arte pode ser e fazer. A prática de Esperanza de León, por exemplo, funciona como uma junta que conecta obras não pela imposição de narrativas, mas abrindo caminhos para que as memórias – há muito deslocadas – falem por si mesmas – escreveu María Elena Ventura em seu artigo sobre a curadora guatemalteca.

Subverter o neoliberalismo que tantas vezes destrói nossas comunidades foi um tema recorrente. Em um artigo de Raquel Villar-Pérez, a escritora analisa a prática de Andrea Chung e como o amor da artista por materiais efêmeros impede que as obras sejam mercantilizadas, impedindo, portanto, que histórias de trauma negro sejam transformadas em mercadoria.

Mixed-media collage of a brown-skinned bust figure with beaded necklaces, surrounded by green palm leaves, blue textured forms, and a lizard, on textured dark blue paper.

From Sisters of Two Waters (De irmãs de duas águas), 2018. Cortesia da artista.

Em dois de meus artigos, destaquei o quanto artistas Negres e Indígenas como Edgar Calel e Cameron Rowland estão abrindo possibilidades para que instituições e mercados prestem contas por sua história contínua de violência, ao mesmo tempo que incentivam mais artistas a encontrar reconciliação e regeneração por meio de suas tradições ancestrais; e, em um obituário publicado no quarto aniversário de sua morte, celebramos a vida e a obra de Macuxi Jaider Esbell, morto pelo extrativismo epistêmico com apenas 41 anos.

A black-framed artwork displays a grid of 15 white documents with typed text and numerical data, plus three empty spaces.

Cameron Rowland, Bankrott, 2023. Dívida indefinida. Reparações foram pagas a proprietários de escravizados. A emancipação indenizada permitiu que os proprietários de escravizados mantivessem o valor que haviam atribuído às vidas das pessoas escravizadas, além dos lucros extraídos de seu trabalho. A emancipação indenizada no Haiti, no Brasil, em Cuba, em Washington, D.C., nas colônias britânicas, nas colônias dinamarquesas, nas colônias holandesas e na África Oriental Alemã pagou proprietários de escravizados pela perda de sua propriedade escravizada. Proprietários de escravizados e seus financiadores receberam compensações monetárias, obrigações de dívida com juros elevados e trabalho servil contratado como forma de pagamento. As indenizações britânicas impulsionaram o crescimento de instituições financeiras britânicas que detinham hipotecas pendentes de plantações, incluindo o Barclays, o Lloyds Bank e o Royal Bank of Scotland. A dívida de indenização haitiana, originalmente paga por pessoas anteriormente escravizadas a proprietários franceses de escravizados, foi comprada e vendida por diversos bancos, incluindo Crédit Industriel et Commercial, Crédit du Nord, Citibank e ODDO BHF. Essas indenizações continuam a crescer dentro dos bancos europeus juntamente com os lucros da economia escravista. O valor da vida escravizada, do trabalho e da capacidade reprodutiva permanece integral às instituições financeiras europeias, corporações, universidades, museus e governos. Frankfurt am Main é o centro monetário da zona do euro e abriga escritórios de quase todas as grandes instituições financeiras europeias. A concentração de empresas financeiras em Frankfurt am Main enriqueceu a cidade desde o século XVII. Um empréstimo de 20.000 euros foi concedido ao Museum MMK für Moderne Kunst pela Bankrott Inc., uma empresa criada com o propósito de manter uma dívida indefinida. Por se tratar de um empréstimo à vista, nenhum pagamento pode ser feito até que o credor exija o reembolso. A Bankrott Inc. nunca exigirá o reembolso. A dívida acumulará juros indefinidamente. Ela aumentará a uma taxa de 18% ao ano, a taxa mais alta legalmente permitida. O Museum MMK für Moderne Kunst é um departamento do governo municipal, Amt 45 i. Por essa razão, essa dívida é devida pela cidade de Frankfurt am Main. Como reparação, essa dívida constitui uma restrição à acumulação contínua derivada da escravidão. Como negação de valor, ela não busca redistribuir a riqueza derivada da vida escravizada, mas sim onerar seus herdeiros.

Como sempre lembramos na C&AL, o que é essencial são as práticas voltadas à comunidade e às pessoas. Rogério Felix retratou o Museu de Arte de Simões Filho (MASF), uma iniciativa comunitária no estado da Bahia criada pelo artista Augusto Leal em 2023. E Nicolás Vizcaíno Sánchez teve uma conversa com a equipe do Corredor Afro, em Porto Rico, sobre a importância das redes de solidariedade, comunidade e ancestralidade Iorubá. Em entrevista, Marta Moreno Vega recorda: “Lembro-me de quando estava trabalhando para fundar El Museo del Barrio. Fui ao Conselho de Artes, em Washington D.C., e apresentei o projeto. Expliquei que 'El Museo del Barrio' significa o museu da comunidade, certo? O diretor do programa cultural olhou para mim e disse: 'Vocês não são um museu. Por que estão se chamando assim? Quem disse que vocês eram um museu?' E eu respondi: 'Por que você está me perguntando isso? Estou lhe dizendo: é um museu'. Ele respondeu: 'Bom, isso não se encaixa na nossa definição de museu e, por isso, não podemos apoiar vocês'. Se eu tivesse aceitado a definição que estavam me oferecendo, eu teria fechado as portas do nosso projeto, e o teria transformado em mais um programa escolar criado pela nossa comunidade. Mas eu sabia que El Museo del Barrio era o coração pulsante do nosso povo – de nossa comunidade, nossas mães e nossos pais. E, se não conseguíssemos apoio oficial, então o apoio viria da nossa comunidade, do nosso povo.”

É exatamente essa energia que queremos fomentar e amplificar. À medida que damos continuidade a esse trabalho, convidamos você a ficar ao nosso lado.

A public staircase with a mural of faces on the risers, surrounded by people, and a MASF sign on the right.

Exposição Diney Araújo, a lente generosa (2023). Fotos: Augusto Leal e Diney Araújo.

É exatamente essa energia que queremos fomentar e amplificar. À medida que damos continuidade a esse trabalho, convidamos você a ficar ao nosso lado.

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Com gratitude e axé,

Will Furtado e a equipe da C&AL

Sobre o autor

Will Furtado

Will Furtado é editore-chefe da C&AL.

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A large, irregular art piece covered in vibrant, multicolored, organic textures, suspended above a light-colored floor.

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